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O ano em que fizemos furupa


Em 2018, depois de uma década estudando e ensinando mandarim com um nível intenso e um tanto sufocante de exclusividade, aprendi duas palavras em português:

Furupa: farra, algazarra, o som e a atmosfera criados pela gandaia, notavelmente a infantil. Seria a irmã mais nova da novamente popular BALBÚRDIA. Agradeço à minha família por falar essa, sobre o pandemônio de meus afilhados e seus cupinchas.

Sintropia: contrário de entropia. Enquanto esta se define pela desagregação e a dispersão de energia e declínio de sistemas, a sintropia consiste em complexificação, crescimento, sinergias; um processo próprio da dinamização dos sistemas, do florescimento da vida. Agradeço aos amigos agrofloresteiros e ao mestre Ernst Götsch por essa.

Fico feliz de ver ambas as palavras entapetadas pela linha pontilhada vermelha do corretor; a proposta aqui é reaprender português e desenvolver minhas pouco cultivadas escrita literária e capacidade argumentativa, mas nunca pude conter a alegria em fazer experimentos, mesmo nos momentos mais solenes. ("Entapetar" também aparece entapetado aqui, oh glória.)

Ei-la aqui, toda saudosa e pimpona, a tal vontade de escrever. A ocasião merece uma reflexão e, se aprendi um mínimo sobre mim, vai desembocar numa espécie de manifesto.

Em algum momento de 2015, finda a segunda tese de mestrado em chinês, algo em mim se exauriu. Os relatórios de fim de semestre pareciam o suficiente num processo que parecia ligado ao súbito desinteresse pela fotografia - depois de fotografar demais para um jornal peruano. Não queria mais tirar foto, queria ver. Não queria mais escrever, mas apenas perceber.

Tomei um rumo interno que encontrava algum contrapeso na capoeira, na música e nas aulas - tantas que me faltava voz, mas não mais em parágrafos. Lia com alguma voracidade sobre meditação e espiritualidade, como que para completar a (re)leitura que fazia para dentro. A literatura e as notícias foram ficando distantes, embora uma ou outra série me fisgasse. Os dias de meditação e serviço aos que meditavam foram se multiplicando, tanto em cursos como na vida diária, que materializei no Espaço Bicho-da-seda, um espaço semi-público onde ensinei mandarim e me deixei cercar por uma constelação de pessoas incríveis.

A vida tomou um tom monástico; parei de comer carne, beber álcool e deixei que os espaços de celibato entre eventuais relacionamentos ocupassem vários meses, abrissem espaço para uma relação intensa com a terra e as plantas. Estava mesmerizado com os benefícios e a sintonia que surgiam inesperadamente por todos os lados. Era uma revolução! Tudo aquilo que eu pensava ter de fazer e conquistar esteve sempre lá e só precisava... ser percebido. Senti medo de ter a tal vocação de monge, como um padre havia prenunciado na minha primeira - e única! - confissão.

Mas continuei mergulhando. O quanto mais de paz poderia alcançar, de conflitos poderia resolver, de insights poderia ter? O que estaria me esperando lá no fundo, o mais fundo que conseguisse alcançar? Tinha certo medo de ser uma calma tão profunda que eu não quisesse mais voltar. Meio frustrado, meio aliviado, encontrei muitas inquietações neste metro final da mangueira do escafandro.

Queria aprender mais do que mandarim e meditação, queria fazer parte de uma ofensiva pelo nosso planeta, mesmo que já seja tarde demais. Quero servir à família humana e à natureza com a plena realização dos talentos que me foram confiados. E isso parece envolver o grande interesse por línguas, pela compreensão e confraternização entre povos. Osho exprimiu bem meus sentimentos quando definiu nosso alegado conhecimento do mundo como "um jogo de dar nomes" e aquilo me serviu para justificar os anos de silêncio.

Eu nunca havia pensado - nem ele dito - que não havia problema em ser uma espécie de jogo, "it is what it is", e aqui estou eu recarregado para engajar na partida, para tomar partido. Acho que o conhecimento, o jogo de nomear e organizar o mundo em línguas, sistemas, credos e fronteiras não é sabedoria em si, mas pode criar condições para que ela aconteça, ou ao menos combater condições adversas que atingem a tantos - das quais pude escapar um pouco por empenho, mas basicamente por sorte e privilégio.

O pouco que pude vislumbrar, devo a essa oportunidade de ter viajado pela vastidão da minha ignorância. Preso na dualidade entre construir muros ou pontes, não enxergava que era mais importante para mim cuidar dos rios e do ar. Cuidar dos ensinamentos que recebemos, de quem me ensina, de quem canta e toca comigo, e principalmente de quem joga comigo, como vivencio na capoeira. E as vezes o jogo fica pegado. Na grande roda, muito mais treta, talvez muita paixão e briga no horizonte. Ok. Como disse Paul Fleischman, o Buda ensinou não-violência, não ensinou pacifismo. Se vier guerra, que eu possa ter "o bom combate", para citar também o Mestre nazareno.

Com que cara eu chego do outro lado não tendo feito tudo o que podia para que outras pessoas tenham chances parecidas às que tive? Para que saiam da mera sobrevivência e tenham seus próprios despertares? Que despertares já tiveram justamente pela dificuldade que a vida e o sistema impuseram a elas? Muita calma nessa hora, não estou aqui para doutrinar ninguém (que não queira saber de doutrina). Mas estou pra jogo. Se não nos entendermos, se negligenciarmos a Terra a um ponto de não retorno e perecermos enquanto coletivo, taí, é o que plantamos. Sem precisar de nenhum zumbi ou alienígena para fazer em velocidade o que temos feito gradualmente.

Onde estão meus modos, seria bom um pouco mais de leveza para terminar. Uma vez a professora viu um desenho que eu ainda não havia colorido, achou tão pesado, ficou meio muda e triste. Depois que pus as cores, abriu um baita sorriso, desabafou: "Não achei que você ainda fosse conseguir dar tanta vida!" Pois bem, a gente redesenhou o mundo cheio de linhas e nomes que não estavam aqui, carregou no cinza e no vermelho-sangue... Daí apostou em algumas linhas do mapa em uma guerra, em algumas siglas e nomes de empresas na bolsa de valores, como se a idéia de escassez que tanto nos ajuda a realocar os recursos econômicos simplesmente fosse apagar a abundância com que fomos presenteados. Que tal se dermos menos importância a algumas linhas, dessas que dividem países, etnias, culturas, religiões, torcidas, correntes políticas, e jogarmos outras cores por cima para avivar?

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